Sarve, Oh! Deus Onipotente!
Qui criou o céu e o má,
Qui veno a gente pecá
Ainda perdoa a gente;
Sempre bondoso e cremente,
Nos dá toda proteção,
É pai ditoso e, então,
Seu amô é santo, é puro
Qui inté pru crime mais duro
Ele reserva um perdão!
Minha istora é cunhecida
Pur todo esse sertão,
Só ninguém sabe, patrão,
Qui a liberdade quirida,
Quando a gente vê perdida
É qui o remorso aparece
E dentro da gente, cresce.
Mas cadê pudê vortá
Do mei da trama e evitá
As teia qui o diabo tece?
Ao obtê a liberdade,
Num teno mais o meu pai,
Minha mãe, vai mas num vai,
Saí triste, na verdade.
Minha mãe, pur piedade,
Do muito qui ocorreu,
Num relato pra eu.
Ansim, preso, eu num sabia
Qui a fome, muitos dia,
Na sua porta bateu.
Mas minha mãe inda me viu
Gozano da liberdade.
Mas já avançada da idade,
Com mais um ano, partiu.
Me abraçano sorriu
Quando sua hora chegô,
Sorrino me abençoô,
E pru céu, cuma um anjinho,
Ansim Cuma um passarinho,
Sua alma pura vuô.
Fiquei sozinho no mundo,
Inda pur cima, mal visto.
Me agarrei cum Jesus Cristo
Pra num sê um vagabundo.
Meu desgosto era profundo
Quando eu via Dona Aninha
Qui tombém ficô sozinha,
Pois viúva criô Zé,
Qui eu ajuntei os pé
Naquela hora mesquinha.
Deus me perdoe – Ave Maria!
Se vou dizê coisa fea:
Mermo sorto ou na cadea
Eu tinha a merma agonia,
A merma dô me afrigia
Cuma se eu fosse um ateu,
Era triste os dia meu...
Parecia, meu patrão,
Qui Deus, cum toda razão,
Andava cum raiva d’eu.
Apesá de tê dexado
A danada da cadêa
Tinha na alma u’a peia
Eu vivia amargurado.
Tinha um remorso incausado
Qui num achava meizinha,
Mas u’a voz, u’a tardinha,
Me dixe qui pra eu vivê
Eu tinha qui obtê
O perdão de Dona Aninha.
Fui entonce, sem demora,
Pru ranchim, pra casa dela,
Qui, pra mim, virô capela
E ela, Nossa Senhora!
Dona Aninha, minh’alma implora,
Eu vim aqui lhe implorá
Seu perdão; e ela, a me oiá
Cum uns zoinho imbaciado
Me abraçô e, abraçado,
Nós cumecemo a chorá.
Dipois sirrimo. E Jesus,
Num registro na parede
Do ranchim, bem junto à rede,
Tombém sirriu lá da cruz.
A sala se incheu de luz
Viro u’a ingreja a casinha
Diante, intão, da veinha,
Sentei o juei no chão,
De Deus sintino o perdão
No perdão de Dona Aninha.
E ainda, pur sorte minha,
Cumpretano o seu perdão,
Numa noite de São João,
Ela quis sê minha madrinha.
Ansim, a doce veinha
Fez eu isquecê o qui se deu,
O meu passado morreu
E a minha vida hoje é bela.
A minha mãe, hoje, é ela
E o Zé, pra ela, sô eu.
Sarve, Oh! Deus Onipotente!
Qui criou o céu e o má,
Qui veno a gente pecá
Ainda perdoa a gente;
Sempre bondoso e cremente,
Nos dá toda proteção,
É pai ditoso e, então,
Seu amô é santo, é puro
Qui inté pru crime mais duro
Ele reserva um perdão.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
CANDOMBÁ
Entre as pedrera qui incerra
Nos seus veio a turmalina,
Nas Lavra diamantina,
Naqueles confins da terra,
Nas brecha sêca da serra
Qui o só veve a quemá,
Naquelas banda de lá
Do mau fadado sertão,
Onde o ano todo é verão,
É qui nasce o candombá.
No sertão sem lei, sem nada,
Onde toda prantação
E tombem a criação
Morreu tudo isturricada,
Na terra sêca, quemada,
É qui nace o candombá
Qui serve pra se quemá
E acendê os fugão,
Candombá é no sertão
O gás do povo de lá.
Sertão qui quando hai fartura
Num hai terra mais mio,
Fruita é pra se inche mocó,
Requejão e rapadura,
Os home num tem usura
E as muié é uns amo;
Hai sempre bons cantado
Qui Cuma uma queda d’água,
Vão chorano suas máguas
E cantano suas dô.
Mas se hai seca, farta tudo,
Derna do pão a justiça
Num tem doto nem puliça,
Nem instrução nem istudo,
Os guverno sempre mudo,
Num se tem pronde apelá
O povo bom a pená
De mulambo é qui se cobre
E a vida sêca do pobre
É Cuma a do camdombá.
E a sêca firme demora
Cum toda a sua mardade
E entonce a felicidade
Diz adeus e vai-se embora
A fome diz “tá na hora”
E os home de pusição
Qui nos tempo de inleição
Abraça o povo se rino
Vão tudo se assumino
Sem alma, sem coração.
Candombá, dá providença.
Faz o teu fogo queimá,
Ou pulo menos isquentá
Dos guverno a indiferença
Queima os papé das pendença
Dos vidraçados salão,
Reduz à cinza os ladrão
E mostra no teu luzi
Qui nos mapa do Brasi
Tombém ixeste o sertão.
Nos seus veio a turmalina,
Nas Lavra diamantina,
Naqueles confins da terra,
Nas brecha sêca da serra
Qui o só veve a quemá,
Naquelas banda de lá
Do mau fadado sertão,
Onde o ano todo é verão,
É qui nasce o candombá.
No sertão sem lei, sem nada,
Onde toda prantação
E tombem a criação
Morreu tudo isturricada,
Na terra sêca, quemada,
É qui nace o candombá
Qui serve pra se quemá
E acendê os fugão,
Candombá é no sertão
O gás do povo de lá.
Sertão qui quando hai fartura
Num hai terra mais mio,
Fruita é pra se inche mocó,
Requejão e rapadura,
Os home num tem usura
E as muié é uns amo;
Hai sempre bons cantado
Qui Cuma uma queda d’água,
Vão chorano suas máguas
E cantano suas dô.
Mas se hai seca, farta tudo,
Derna do pão a justiça
Num tem doto nem puliça,
Nem instrução nem istudo,
Os guverno sempre mudo,
Num se tem pronde apelá
O povo bom a pená
De mulambo é qui se cobre
E a vida sêca do pobre
É Cuma a do camdombá.
E a sêca firme demora
Cum toda a sua mardade
E entonce a felicidade
Diz adeus e vai-se embora
A fome diz “tá na hora”
E os home de pusição
Qui nos tempo de inleição
Abraça o povo se rino
Vão tudo se assumino
Sem alma, sem coração.
Candombá, dá providença.
Faz o teu fogo queimá,
Ou pulo menos isquentá
Dos guverno a indiferença
Queima os papé das pendença
Dos vidraçados salão,
Reduz à cinza os ladrão
E mostra no teu luzi
Qui nos mapa do Brasi
Tombém ixeste o sertão.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
CABOCO SERO
(A Jorge de Oliveira Martins)
Tu qué, caboca, i cum eu,
Morá lá no meu barraco,
N'ua casinha de supapo,
Cubertinha de sapé?
Caboco sero, num iludo,
Meu casebre tem de tudo
Que tem casa de pobre,
Tá inté sobrano uns cobre,
Mas tá fartano muié.
Se vancê fô lh'agaranto
Certo cumo sô home
Passo a casinha em seu nome
Pru tinta e papé, le dano.
Cuma sabe, vivo só,
Mas preciso de um xodó
Pra me fazê cafuné
Aprepará meu café
E brigá de vez in quano.
Vamicê ino, caboca,
Cumigo num se dá má,
Abasta se acustumá
Cum os defeito qui tenho
Um é sê mão aberta
Amigo bom vem na certa,
Pruque eu teno ele tem,
Pra sirvi quem quero bem
Inté a camisa impenho.
Sou manso, sou assussegado,
E nunca muié aêia,
Seno ela bunita ô feia
Eu oiêi cum safadice.
Esse é meu rejume,
Se vancê qué nós assume
Um trato, um cumpromisso
Num tem quengo nem feitiço,
E nem tem disse-me-disse.
Tô tombem respeitadô
Cum otras muié falo pouco
Mas se argum pilantra louco
Desses qui veve no mangue
Buli cum muié minha
Dexa de cumê farinha
Da lei eu sarto pur riba
E no no aço da parnaíba
Dô um banho morno de sangue.
Pois num nasci cum fidunça
Nem cum jeito de paiaço
Persigo no mermo traço
Do meu pai, na merma linha
Véio que nunca mentia
E sempre sempre dizia
De peito inchado e de pé:
Respeito todas muié
E amo somente a minha.
Mas meu defeito maió
É istragá meus tustão
Ganho uito e nessas mão
Nada fica, tudo passa
Vendo tudo, tudo impenho
Impresto tudo qui tenho,
Troco fejão pru farinha
Mais porém cum muié minha
Num hai negoço qui faça.
Se vancê qué i cum eu
Vamo mas seje fié
Pra um home de meu toré
Só muié sera de fato
É seu todoo arrebanhado
Qui eu fizé lá no roçado,
Mais caso vancê me atracei,
Num tem discurpa nem lei,
Eu juto pru Deus, lhe mato!
Tu qué, caboca, i cum eu,
Morá lá no meu barraco,
N'ua casinha de supapo,
Cubertinha de sapé?
Caboco sero, num iludo,
Meu casebre tem de tudo
Que tem casa de pobre,
Tá inté sobrano uns cobre,
Mas tá fartano muié.
Se vancê fô lh'agaranto
Certo cumo sô home
Passo a casinha em seu nome
Pru tinta e papé, le dano.
Cuma sabe, vivo só,
Mas preciso de um xodó
Pra me fazê cafuné
Aprepará meu café
E brigá de vez in quano.
Vamicê ino, caboca,
Cumigo num se dá má,
Abasta se acustumá
Cum os defeito qui tenho
Um é sê mão aberta
Amigo bom vem na certa,
Pruque eu teno ele tem,
Pra sirvi quem quero bem
Inté a camisa impenho.
Sou manso, sou assussegado,
E nunca muié aêia,
Seno ela bunita ô feia
Eu oiêi cum safadice.
Esse é meu rejume,
Se vancê qué nós assume
Um trato, um cumpromisso
Num tem quengo nem feitiço,
E nem tem disse-me-disse.
Tô tombem respeitadô
Cum otras muié falo pouco
Mas se argum pilantra louco
Desses qui veve no mangue
Buli cum muié minha
Dexa de cumê farinha
Da lei eu sarto pur riba
E no no aço da parnaíba
Dô um banho morno de sangue.
Pois num nasci cum fidunça
Nem cum jeito de paiaço
Persigo no mermo traço
Do meu pai, na merma linha
Véio que nunca mentia
E sempre sempre dizia
De peito inchado e de pé:
Respeito todas muié
E amo somente a minha.
Mas meu defeito maió
É istragá meus tustão
Ganho uito e nessas mão
Nada fica, tudo passa
Vendo tudo, tudo impenho
Impresto tudo qui tenho,
Troco fejão pru farinha
Mais porém cum muié minha
Num hai negoço qui faça.
Se vancê qué i cum eu
Vamo mas seje fié
Pra um home de meu toré
Só muié sera de fato
É seu todoo arrebanhado
Qui eu fizé lá no roçado,
Mais caso vancê me atracei,
Num tem discurpa nem lei,
Eu juto pru Deus, lhe mato!
CARRO DE BOI
(A Hamilton Coim)
"Lá vem o carro gemendo,
Carro de boi, dois a dois,
O carro geme entendendo
Toda agonia dos bois"
(Anônimo)
Na tarde que vai morreno
Soluçano nos cocão
Pelos brongo do sertão
Lá vem o carro gemeno
É o carro de boi trazeno
A carga que alguém lhe pois
Em cima é feijão, arroz,
Vem venceno os atolero
Sob o ferrão do carrero
Carro d eboi dois a dois.
E na canga os boi sofreno
Arrastano a carga bruta
Mas unido à grande luta
O carro geme entendeno
Eu tombém vou compreendeno
Ô! Grande Deus! Por quem sois?!
Compreendi que é depois
Das treva que a luz se acende
Geme o carro porque entende
Toda agonia dos bois.
SANTO AMARO DE IPITANGA, NOVEMBRO DE 1985
"Lá vem o carro gemendo,
Carro de boi, dois a dois,
O carro geme entendendo
Toda agonia dos bois"
(Anônimo)
Na tarde que vai morreno
Soluçano nos cocão
Pelos brongo do sertão
Lá vem o carro gemeno
É o carro de boi trazeno
A carga que alguém lhe pois
Em cima é feijão, arroz,
Vem venceno os atolero
Sob o ferrão do carrero
Carro d eboi dois a dois.
E na canga os boi sofreno
Arrastano a carga bruta
Mas unido à grande luta
O carro geme entendeno
Eu tombém vou compreendeno
Ô! Grande Deus! Por quem sois?!
Compreendi que é depois
Das treva que a luz se acende
Geme o carro porque entende
Toda agonia dos bois.
SANTO AMARO DE IPITANGA, NOVEMBRO DE 1985
MEU FEITIÇO
(A José Laurentino - Lauré)
Teu amor é meu feitiço,
Meu anel de catimbó,
Tem mandinga, tem ebó
És meu dengo, és meu derriço
Sou cego e doido por isso
Qual um sariguê por ovo.
Mas nestes versos te louvo
Oh! Paixão que me alucina
Que meu olhar ilumina
Depois me cega de novo.
Teu amor é meu feitiço,
Meu anel de catimbó,
Tem mandinga, tem ebó
És meu dengo, és meu derriço
Sou cego e doido por isso
Qual um sariguê por ovo.
Mas nestes versos te louvo
Oh! Paixão que me alucina
Que meu olhar ilumina
Depois me cega de novo.
DUAS SANTAS
(A Francisco de Assis M. Moura)
"Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da virgem Maria,
Era uma Santa escutando
O que outra santa dizia."
De Manhã, eu hoje quando
De uma farra voltava,
Quando em casa eu entrava
Eu vi minha mãe rezando.
Fiquei bem sério pensando,
Vendo o sol que nascia,
Vinha eu da boemia,
Vendo minha mãe a rezar
Fui também me ajoelhar
Aos pés da Virgem Maria.
E a Santa pra nós olhando
Através de um vidro espesso
Embora esculpido em gesso
Era uma santa escutando
Eu, meus erros confessando,
E a Santa Virgem Maria,
Vendo minha mãe que pedia
Pra esse filho salvar,
Era uma santa a escutar
O que a outra santa diazia.
"Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da virgem Maria,
Era uma Santa escutando
O que outra santa dizia."
De Manhã, eu hoje quando
De uma farra voltava,
Quando em casa eu entrava
Eu vi minha mãe rezando.
Fiquei bem sério pensando,
Vendo o sol que nascia,
Vinha eu da boemia,
Vendo minha mãe a rezar
Fui também me ajoelhar
Aos pés da Virgem Maria.
E a Santa pra nós olhando
Através de um vidro espesso
Embora esculpido em gesso
Era uma santa escutando
Eu, meus erros confessando,
E a Santa Virgem Maria,
Vendo minha mãe que pedia
Pra esse filho salvar,
Era uma santa a escutar
O que a outra santa diazia.
DENTRO DA NOITE
(A Manoel Messias Santiago)
Varando a noite eu vi pelos cassinos
A esbórnia destruindo patrimônios
Vi anjos transformando-se em demônios
E mestres cometendo desatinos.
Vi nas vielas torcerem destinos;
Vi virgens que pediram a Santo Antônio
Um lar e o sacrossanto matrimônio
Serem pastos de vis e libertinos.
Vi a inocência ao léu sob as marquises
Morrendo ante um escol inconseqüente
E a pureza do olhar das meretrizes
Vi ante mil estrelas assombradas
Boêmios sob um céu indiferente
Sereno estuprando as madrugadas.
Varando a noite eu vi pelos cassinos
A esbórnia destruindo patrimônios
Vi anjos transformando-se em demônios
E mestres cometendo desatinos.
Vi nas vielas torcerem destinos;
Vi virgens que pediram a Santo Antônio
Um lar e o sacrossanto matrimônio
Serem pastos de vis e libertinos.
Vi a inocência ao léu sob as marquises
Morrendo ante um escol inconseqüente
E a pureza do olhar das meretrizes
Vi ante mil estrelas assombradas
Boêmios sob um céu indiferente
Sereno estuprando as madrugadas.
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