terça-feira, 24 de novembro de 2009

ATITUDE CELESTINA

ATiTude CelesTina é um movimento cultural que visa a divulgar a obra e pensamento do poeta Tude Celestino de Souza.
Idealizado pela atriz e produtora JusTina Tude, este movimento contempla ações em diversos segmentos, como o Projeto ATiTude - Identidade & Memória de Ipitanga, uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação de Lauro de Freitas que implementa no currículo escolar o estudo e reconhecimento do território, da história e das referências culturais da localidade de Ipitanga, do Tupi “água vermelha” – nome ancestral da localidade que remete à origem indígena.
A nomenclatura ATiTude traz a referência ao poeta Tude Celestino de Souza (1921-1989), falecido literata radicado na então Santo Amaro de Ipitanga (hoje, Lauro de Freitas), cuja obra e pensamento marcam na história do município o mais relevante legado literário atribuído a um cidadão ipitanguense, sendo considerado uma referência na cultura local não só pelo virtuosismo poético como pela iniciativa irrefutável de preservação do nome e memória de Ipitanga.
Visando a reparar essa carência de uma cultura memorial por meio de uma ação que contemple a reinserção do poeta como parâmetro de identificação cultural frente às novas gerações, o Projeto ATiTude prevê a implementação do estudo literário da Poesia Tudina nas escolas públicas municipais como dispositivo para retratação das referências e unidade cultural locais, bem como a história e memória de Ipitanga.
Essa ação pretende oferecer à comunidade de Lauro de Freitas a oportunidade de, através do conhecimento de sua história e cultura, despertar o interesse pela manutenção delas próprias e a produção de uma trajetória posterior que não só as valorize, como, sobretudo, influencie a construção de outras referências memoráveis.
Em 2012, por ocasião dos 50 anos de emancipação política de nosso município, o Projeto ATiTude - Identidade & Memória de Ipitanga, lança a campanha "LAURO DE FREITAS - 50 ANOS, ORGULHO DE SER IPITANGUENSE", uma ação que tem vistas à atribuição do gentílico "ipitanguense" a essa comunidade, como dispositivo da reflexão de ancestralidade e memória.

TUDE CELESTINO DE SOUZA


Nascido em Campo Formoso, em 25 de Junho de 1921, o poeta Tude Celestino de Souza fora criado em Ilhéus, o que lhe conferiu grande parte da inspiração para a fase inicial de sua obra literária, permeada de referências rurais, influências do cordel, repente e cantadores do interior da Bahia. Poeta de formação autodidata, tendo cumprido os estudos formais apenas até o 4° ano primário, é autor da trilogia O Ás de Ouro, o poema mais emblemático de sua obra, uma saga fictícia em três fases, com linguagem matuta, tipicamente sertaneja e eivada de traços trágicos, que narra a trajetória de um sujeito acometido pelo sentimento de vingança e que também dá nome a seu único livro, que teria segunda edição publicada pouco antes de sua morte, mas que aguarda lançamento, previsto em edição especial pelos 20 anos de seu falecimento.
Tude Celestino marcou sua poesia com temáticas relativas à boemia, ao amor e, sobretudo, à referência nordestina, pelo que é mais lembrado; sua obra, no entanto, contempla ainda um traço marcante de versatilidade, incluindo os, ainda inéditos, poemas fesceninos.
Apesar da influência primeira, pautada na temática nordestina, a cegueira, que o acometera por influência do diabetes, constituiu uma relevante influência para o caráter que seus versos assumiram posteriormente, conferindo-lhe determinada pujança e capacidade de abstração e contemplação nãovisual da relação tempo-espaço.
Foi, contudo, durante os anos de 1940, na então Santo Amaro do Ipitanga, onde se teria estabelecido por ocasião da implantação da Base Aérea do Salvador e do Aeroporto Internacional Dois de Julho, vindo atuar como agente aeroportuário, que assumiu plenamente sua irrefutável vocação de poeta, firmando-se como referência cultural do município que o acolheu como ilustre cidadão.
Declarado pelo poeta e jornalista Jeová de Carvalho como um “ente sagrado de impossível repetição”, dada a exuberância, inestimável valor literário e elaboração de sua obra, Tude se manteve sempre em evidência na região, tendo seu nome vinculado a grande parte da agitação cultural e social vigente até o final dos anos 80, quando, por complicações do diabetes, pôs termo à sua produção literária - mas não sua respeitabilidade junto ao povo desse lugar, sobretudo, por conta dos memoráveis saraus que abrigou no espaço cultural Ás de Ouro, referência da boemia local àquela época, quando, através d’A Noite Poeta - evento oficial promovido com incentivo e
participação da prefeitura municipal, contando sempre com presenças de nomes importantes das letras na Bahia -, o poeta gozou do prestígio de nomear o Prêmio Tude Celestino de Souza de Poesia, que, em edições anuais, destacou e incentivou a produção literária local, conferindo visibilidade ao município como eixo cultural no estado.
Recentemente, em iniciativa conjunta de diversos segmentos da comunidade de Lauro de Freitas, a partir da sugestão do Historiador Gildásio Freitas em tributo aos 20 anos de morte do poeta, propõe-se a atribuição de seu nome ao Centro de Cultura local, antiga sede dos festivais em sua homenagem, tornando-o Centro de Cultura Tude Celestino – CCTC.
Apesar da larga influência das ações culturais do poeta Tude Celestino como mantenedor da imagem do município como pólo cultural na sua época, hoje, quase não se tem conhecimento da relevância da sua obra, daí a importância de ações como o Movimento ATiTude CelesTina e, mais especificamente, o Projeto ATiTude.
Tude Celestino, entre outras peculiaridades, marcou em sua obra uma veemente ação pela preservação do nome e memória de Ipitanga (que remete à origem indígena e significa água vermelha) - denominação original da localidade hoje conhecida pelo nome de Lauro de Freitas, que lhe foi atribuído por ocasião da emancipação política ocorrida em 1962.
Manifestando sua ressalva pela atribuição de tal nome ao município, o poeta alegara antever um processo sutil de alienação da memória local. Para ele, a emancipação política, um processo legítimo e natural na trajetória de evolução de uma localidade, não pressupunha necessariamente o desmerecimento da memória e das referências locais referendadas no nome de Santo Amaro de Ipitanga (denominação jesuíta estabelecida com a fundação da freguesia em 1608).
Atento à necessidade da instituição de dispositivos para a manutenção da memória local, datou toda a sua obra literária em Ipitanga ou mesmo Santo Amaro de Ipitanga, mesmo nas composições posteriores à emanciapção, além de ter rejeitado o título de cidadão laurofreitense, alegando, no entanto, que se reconhecia cidadão ipitanguense.
A despeito da cegueira, tal sensibilidade e percepção apurada do mundo e da sociedade nem sempre fora expressa em seus versos, mas marcou seu pensamento em sua comunidade e em seu tempo conferindo-lhe a notoriedade e respeito de que goza ainda hoje.
Tude Celestino – o poeta de Ipitanga, faleceu em 21 de Julho de 1989, deixando viúva e quatro filhos e está sepultado no cemitério da igreja da matriz.

POESIA TUDINA

Expressão que designa a obra literária do poeta Tude Celestino de Souza, a chamada Poesia Tudina foi assim declarada pelo produtor cultural lusitano Mário Alves.
O legado da Poesia Tudina registra composições marcantes como a trilogia O Ás de Ouro, Candombá e Caboco Sero, que dão conta da influência sertaneja e matuta em sua obra. Outras referências, mais acadêmicas e eruditas são verificadas, porém, em sonetos como Dentro da Noite, Boêmio II, Lago de Narciso, Inconseqüência, Ouve-me e Madalena- Oração 7, marcando o rigor e diversidade desse aedo do asfalto, o Poeta de Ipitanga.

PREFÁCIO AO ÁS DE OURO

TUDE CELESTINO DE SOUZA É O PARNASO DO POVO

Eram os anos cinqüenta. No salão central do prédio de n°7 da Rua da Oroação, sob olhares admiradores de Bernadete Sergipana, um corpulento mulato quarentão de olhos grandes como que saídos das órbitas, declama "O Ás de Ouro", uma como que epopéia da vida de seu pai, cujo nome se perdeu no apelido que deu nome ao poema. Ele mesmo, um jogador que levava o poeta, à época um menino de ooito anos, às tavernas do sul da Bahia, há mais de sessenta anos.


(Jeová de Carvalho - Poeta, jornalista e Advogado)

O ÁS DE OURO

Seu moço, eu já fui incréu,
Mas num baráio, meu patrão,
Nunca mais eu boto a mão
Inquanto huvé Deus no Céu!
Baráio é morte, é ruína,
E pru mode essa silibrina
Pai de famia se mata
Dispôs que impenha a aprecata
E perde a ropa e o chapéu.

Todo jogo é tentação,
Mas num baraio, seu dotô,
Foi que o anjo inganadô
Butô mais quengo e treição
É cum ele que o sujo ganha
As arma qui ele arrebanha
Nos arçapão das cafuas
Pois é u’a verdade nua:
Baráio é a bíbria do cão!

Meu pai já foi home abastado
Quando eu ainda era minino,
Quando eu cresci, seu Celino
Já era, então, um pé rapado.
Vaca, casa, budega,
As casinha, os boi, as égua,
Roça, casa de farinha,
Quando pensou que ainda tinha,
Já o baráio tinha levado.

Migué Celini Paranho
O Ás de Ouro cunhecido,
Era um véio distemido
E ao falá num me acanho,
Ao perdê tudo, meu pai
Dixe ansim: Num jogo mais!
No baráio sapecô fogo
Pagô as dívida do jogo
E foi dá dia de ganho.

Meu pai era um véio pacato;
Cum eu o leite frivia,
Pois sei que o jogo esse dia
Era u’a cama de gato;
E eu dismanchava a baiúca,
Dismantelava a arapuca,
Gritava: Arco de reis!
Matava dois cabra ou três
E me imbrenhava no mato.

Pur quê eu nunca quis tostão
Num seno meu, seu dotô
O meu tumém eu num dô
Nem qui venha um batainhão;
E mode esse rejume,
Eu cunheci o negrume
Do Manto dos disingano
Dos qui leva quinze ano
No fundo de u’a prisão.

Hoje qui tudo acabô
E qui eu já fui perduado,
Qui no baú do passado
Num guardo mais essa dô,
Essa mágua, essa enlusão,
Vô abri meu coração
Qui é pra todo mundo vê
E eu contá pra vamicê
Cuma o caso se passô:

Foi no arraiá dos Firmino
Numa noite de Natá,
In vez de i pra ingrejinha oiá
Nos presepe Deus Minino
Fui foi pr’um jogo que tinha
Na casa de Zé de Aninha,
Um jogadô patotero
Qui robô muito dinhero
Do meu pai – do véi Celino.

Pur o cabra eu tinha rêxa
Guardada no coração,
Dessas que garra um cristão
E nem cum a morte num dêxa.
Atrás do Zé, no sucaro,
Cuma cachorro no faro,
Há muito tempo eu vivia
E ele bem sabia
A razão de minhas quêxa.

Fui e entrei no mundéu;
Zé de Aninha cum distreza
Butava as carta na mesa
Si rino sempre pra eu;
Figurô terno e ás de ouro
Sinti um tremô no coro
E falei cum frio na ispinha:
Nesta ronda, Zé de Aninha,
Os ás qui sai é meu.

Ele dixe: Cuma quêra,
Do princípio inté o fim;
Seu pai tomém era ansim
Mas já lhe fiz a cavêra.
E eu lhe dixe: Mas cum fio
Num ande fora dos trio;
Vou lhe avisá, num se zangue:
Lhe afogo todo em seu sangue
Se jogá cum ladroêra.

E arrancano o meu punhá
Finquei de leve na mesa
Quando larguei, qui beleza,
O cabo tremeu no ar.
Dois capanga do Zé
Qui tavam atrás dele, in pé,
Tremero veno meu fogo;
Zé deu saída no jogo
E cumecemo a jogá.

Meia noite a pressão
Do nosso jogo subia;
Eu no ás sempre perdia
E o Zé si rino... Apois não!
E eu já cheio de incerteza,
Oiei dibaxo da mesa
E vi então cum esses óio
Qui nunca teve dordóio
Dois ás de baráio no chão.

Dano um sarto de cavalo,
Ranquei o punhá da mesa,
E, cum toda ligereza,
Sigurei Zé no gargalo
E dei vinte punhalada
Inquanto qui in disparada
Os dois capanga fugia
E na ingrejinha se uvia
Cantarem a missa do galo.

Quinze ano - ou foi cem?
Eu amarguei na prisão.
Já sou homem de bem;
Só vivo do meu trabáio.
Num peguei mais in baráio,
Dexei aquela vidinha.
Mas o tal de Zé de Aninha
Nunca mais roba ninguém.

A VINGANÇA DE ZÉ DE ANINHA

São João! Fuguete! Istôro!
E eu aqui, queto, iscundido,
Muito triste e arrepindido,
Cum cara de mau agôro.
Eu so fio do Ás de Ouro
Qui, pur disventura minha,
Liquidei o Zé de Aninha
Nu’a noite de Natá
E agora vivo a pená
De um remorso qui me ispinha.

A sorte é quem ditrimina
O qui nós é nesse mundo;
Uns nasce pra vagabundo
E tem qui cumpri a sina,
As vez a gente arrimina
Faz tolice de minino
Mas num distorce o distino.
Zé nasceu pru baráio
Eu, da vida nos ataio,
Triminei seno assassino.

Mas paguei as minhas pena
Todinha à sociedade,
Só inda agora a maldade
Do remorso me condena;
Fecho os óio e vejo a cena
Do Zé a se acabá;
No seu sangue se banhá...
Tombém oiço as pancada
Dos sino, as badalada
Da ingrejinha do arraiá.

Iscute, seu moço, meu azá,
Foi vê naquela vingança
I simbora a isperança
D’eu um dia me salvá,
Dispois de o Zé eu matá,
Num buteco – o Perde e Ganhe
Eu quis inté abri champanhe;
Mas a vingança nos trai:
Jugano vingá meu pai,
Quaje matei minha mãe.

Minha mãe qui sofreu tanto
- Cuma ela merma me contô –
Qui derna qui se casô
Qui veve a derramá pranto,
Fez promessa a todo santo
Pra meu pai – O véi Celino,
Dexá o triste distino,
Do barái dexá os trio
E acabô foi veno o fio
Na prisão como assassino.

E meus ano de prisão,
Qui quaje num acabam mais.
Minha mãe num teve paz,
Só mágua no coração.
E só, naquela aflição,
Lembrei dela – Dona Aninha,
A mãe do Zé, u’a veinha
Qui veve a rezá pur ele.
Eu, veno triste a mãe dele,
Lembrava, triste, da minha.

Parece inté um mistéro.
Qué vê, repare, patrão:
Das grade de minha prisão,
Eu via de perto o impero
Da tristeza – o sumitéro.
E via sigui de pé,
Todo dia u’a muié...
- Era ela, Dona Aninha,
Qui ia toda tardinha
Rezá na cova do Zé.

As duas santas muié,
Sobe ainda na prisão,
Qui passavam privação
Talvez inté fome, inté.
Prá irem, cheia de fé,
U’a vê o fio novamente,
Teno no pé u’a corrente;
A ôta, pru campo santo.
Duas mãe com o mermo pranto
Chorano dô diferente.

Moço, nós tudo um dia
Divia entrá num xadrez,
Passá dois dia ou três,
Veno passá sem alegria
As hora nas inxovia
Mermo sem firi ninguém;
Garanto, qui era um bem
Siria útil a lição,
Diminuía os ladrão,
E os assassino tomém.

Mas, sim, minha penitença:
Paguei toda na prisão,
Mas a arma e o coração,
Tão presa em otra sentença;
No remorso, a mágua imensa
Qui me traz arrepindido,
Me taxaro de bandido
E, ao senti esse horrô,
Eu fiz a nosso senhô
Esse pungente pedido:

Oh! Deus, tenha a arma do Zé
No santo reino da glora
E me dexe vida a fora
Nos ispinho sangrano os pé.
Inté que um dia inté
Eu ganhe de novo a isperança
Qui só penano se arcança;
Dexe,meu Deus, eu sofrê!
E qui seja do meu vivê
Do Zé de Aninha a vingança.

REDENÇÃO

Sarve, Oh! Deus Onipotente!
Qui criou o céu e o má,
Qui veno a gente pecá
Ainda perdoa a gente;
Sempre bondoso e cremente,
Nos dá toda proteção,
É pai ditoso e, então,
Seu amô é santo, é puro
Qui inté pru crime mais duro
Ele reserva um perdão!

Minha istora é cunhecida
Pur todo esse sertão,
Só ninguém sabe, patrão,
Qui a liberdade quirida,
Quando a gente vê perdida
É qui o remorso aparece
E dentro da gente, cresce.
Mas cadê pudê vortá
Do mei da trama e evitá
As teia qui o diabo tece?

Ao obtê a liberdade,
Num teno mais o meu pai,
Minha mãe, vai mas num vai,
Saí triste, na verdade.
Minha mãe, pur piedade,
Do muito qui ocorreu,
Num relato pra eu.
Ansim, preso, eu num sabia
Qui a fome, muitos dia,
Na sua porta bateu.

Mas minha mãe inda me viu
Gozano da liberdade.
Mas já avançada da idade,
Com mais um ano, partiu.
Me abraçano sorriu
Quando sua hora chegô,
Sorrino me abençoô,
E pru céu, cuma um anjinho,
Ansim Cuma um passarinho,
Sua alma pura vuô.

Fiquei sozinho no mundo,
Inda pur cima, mal visto.
Me agarrei cum Jesus Cristo
Pra num sê um vagabundo.
Meu desgosto era profundo
Quando eu via Dona Aninha
Qui tombém ficô sozinha,
Pois viúva criô Zé,
Qui eu ajuntei os pé
Naquela hora mesquinha.

Deus me perdoe – Ave Maria!
Se vou dizê coisa fea:
Mermo sorto ou na cadea
Eu tinha a merma agonia,
A merma dô me afrigia
Cuma se eu fosse um ateu,
Era triste os dia meu...
Parecia, meu patrão,
Qui Deus, cum toda razão,
Andava cum raiva d’eu.

Apesá de tê dexado
A danada da cadêa
Tinha na alma u’a peia
Eu vivia amargurado.
Tinha um remorso incausado
Qui num achava meizinha,
Mas u’a voz, u’a tardinha,
Me dixe qui pra eu vivê
Eu tinha qui obtê
O perdão de Dona Aninha.

Fui entonce, sem demora,
Pru ranchim, pra casa dela,
Qui, pra mim, virô capela
E ela, Nossa Senhora!
Dona Aninha, minh’alma implora,
Eu vim aqui lhe implorá
Seu perdão; e ela, a me oiá
Cum uns zoinho imbaciado
Me abraçô e, abraçado,
Nós cumecemo a chorá.

Dipois sirrimo. E Jesus,
Num registro na parede
Do ranchim, bem junto à rede,
Tombém sirriu lá da cruz.
A sala se incheu de luz
Viro u’a ingreja a casinha
Diante, intão, da veinha,
Sentei o juei no chão,
De Deus sintino o perdão
No perdão de Dona Aninha.

E ainda, pur sorte minha,
Cumpretano o seu perdão,
Numa noite de São João,
Ela quis sê minha madrinha.
Ansim, a doce veinha
Fez eu isquecê o qui se deu,
O meu passado morreu
E a minha vida hoje é bela.
A minha mãe, hoje, é ela
E o Zé, pra ela, sô eu.

Sarve, Oh! Deus Onipotente!
Qui criou o céu e o má,
Qui veno a gente pecá
Ainda perdoa a gente;
Sempre bondoso e cremente,
Nos dá toda proteção,
É pai ditoso e, então,
Seu amô é santo, é puro
Qui inté pru crime mais duro
Ele reserva um perdão.